Autenticidade: a arte de deixar de estar à frente de si próprio
Falamos disto sem parar nos treinos, procuramo-la em cada cena como o Santo Graal, e quando ela aparece, toda a gente na sala sente logo: a autenticidade. Mas, afinal, o que é? Um músculo que se treina? Uma iluminação que nos cai em cima durante o aquecimento?
Já agora: a autenticidade em palco é um paradoxo. Estamos ali a afirmar que somos cirurgiões em Marte ou uma família a jantar, e ainda assim o público exige que sejamos "verdadeiros". Quando tentamos "representar autêntico", normalmente caímos diretamente na armadilha do kitsch ou ficamos mortalmente aborrecidos, de tanto esforço para parecermos sinceros.
Na verdade, a autenticidade não é um objetivo a que se chega à força de trabalho duro. É mais aquilo que sobra quando deixamos de fingir, de fazer palhaçadas ou de servir o "palhaço engraçado da impro". Trata-se de deixar cair a máscara – mesmo que de início pareça nu e perigoso.
Para que no próximo set não te limites a debitar papéis, mas crias momentos que tocam de verdade, vamos ver o que dizem as grandes cabeças do mundo da impro. Surpresa: cada uma tem o seu método próprio (e por vezes maravilhosamente contraditório).
1. Keith Johnstone: ser "médio" como superpoder
Comecemos pelo clássico. Para Keith Johnstone, o nosso maior inimigo em palco é a ânsia de sermos originais ou espertos. Conhecemo-la bem: estás em palco, o teu parceiro diz algo, e a tua cabeça começa a girar: "O que posso dizer agora para fazer toda a gente rir? Como pareço especialmente brilhante?"
Para Johnstone, isso é exatamente a morte da autenticidade. Porquê? Porque nesse momento já não estás no momento. Estás na tua cabeça, a filtrar os teus impulsos, a tentar impressionar o público. E Johnstone responde, muito seco: "Não tentes ser original. Sê médio."
O óbvio é o teu verdadeiro eu
A graça é esta: o que para ti é "óbvio" ou até "aborrecido" é, para todos os outros, totalmente único. Se simplesmente disseres o que te vem em primeiro lugar, sem o passares pelo censor interior, revelas o teu pensamento verdadeiro. Isso é autêntico. Para Johnstone, autenticidade é assim a permissão que dás a ti próprio para seres "aborrecido". Paradoxalmente, é precisamente daí que saem as cenas mais interessantes, porque parecem humanas em vez de uma piada construída.
Mandar o censor de férias
Quando éramos crianças, todos éramos mestres da autenticidade. Brincávamos, gritávamos, ríamos sem nos perguntarmos: "Posso? Isto fica ridículo?" Pela educação e pelo medo de sermos julgados, construímos um censor interior. Em palco, temos de desligar esse censor. Quem se entrega ao momento e larga o controlo mostra os seus verdadeiros sonhos e medos. Sim, é assustador – mas é exatamente isso que o público quer ver.
2. Del Close: "Truth is funny" – a verdade nua e crua
Se Johnstone é o psicólogo da improvisação, Del Close foi o seu sumo-sacerdote. O lema dele era radical: "Truth is funny" (a verdade é engraçada). Estava convicto de que não temos de inventar piadas. A própria vida, na sua honestidade sem retoques, já é absurda e cómica que chegue.
Sem medo do feio
Para Close, autenticidade significava procurar a realidade emocional. Se em palco recebes uma má notícia, não interpretes "tristeza engraçadinha". Reage tão a sério como reagirias na vida real. Se isso quer dizer que a cena fica sombria, dolorosa ou até feia durante dois minutos, paciência. Close detestava quando os jogadores "salvavam" uma emoção verdadeira com uma piada barata porque não aguentavam o desconforto na sala. Autenticidade aqui significa: a coragem do silêncio e a coragem da dor.
Play at the top of your intelligence
Outro ponto-chave nele: não te faças mais burro do que és. Muitos improvisadores refugiam-se em vozes parvas ou clichés (o "camponês idiota", a "loira burra") para arrancar risadas. É o oposto da autenticidade. Close exigia: traz todo o teu conhecimento, as tuas opiniões, a tua profundidade intelectual para o palco. Sê um ser humano completo, não uma caricatura. Quando estamos em palco como "pessoas inteiras", damos ao público a permissão para deixar cair também a sua própria fachada. Para Close, é esse o verdadeiro sentido do teatro.
3. Mick Napier: o golpe libertador – "Do something!"
Aqui as coisas tornam-se um pouco mais selvagens. Mick Napier (Annoyance Theatre) não tem paciência para tanto cogitar filosófico. Para ele, a autenticidade nasce da autoconfiança e da ação. A abordagem dele é um ataque rock contra todas as regras que nos crispam.
Sustentar a "primeira decisão"
Napier diz: muitas vezes parecemos pouco autênticos porque hesitamos. O público vê-nos a pensar ("Faço? Está bem?"). Nesse momento de incerteza perdemos a nossa presença.
A solução dele: toma uma decisão imediatamente. Não importa qual. Fica furioso com uma mancha na parede ou afirma que és perito em física quântica. Ao apoiar o teu primeiro impulso sem compromissos, soas verdadeiro. Autenticidade aqui não é cavar fundo na alma, é defender com força a tua decisão sem pedir desculpa.
A verdade física
Um truque genial de Napier: se não sabes quem és ou como reagir autenticamente – mete-te a trabalhar. Lava o chão, repara um carro, cozinha uma sopa. Pela ação física, a tua cabeça esquece-se de fingir. O teu corpo torna-se autêntico porque tem uma tarefa. As palavras seguem essa realidade física com toda a naturalidade. Quem está ocupado não tem tempo para se preocupar com o "efeito".
4. Viola Spolin: autenticidade pelo esquecimento de si
Viola Spolin, a mãe dos theatre games, tem uma visão quase técnica da coisa. Para ela, a autenticidade é um subproduto do foco.
Se tens uma tarefa que te exige a fundo (por exemplo, "move-te como se o ar fosse geleia" ou "fala só em rima"), o teu cérebro está tão ocupado a lidar com isso que não lhe sobra capacidade para querer "ficar bem". Desapareces no jogo. Esse esquecimento de si é a forma mais alta de autenticidade. És verdadeiro porque, simplesmente, estás demasiado ocupado para mentir.
5. UCB e Patti Stiles: lógica e generosidade
A Upright Citizens Brigade (UCB) aborda o tema pelo lado analítico. Aqui, autenticidade quer dizer coerência emocional. Se construímos um mundo absurdo, dentro desse mundo temos de reagir "a sério". Se a tua personagem tem medo de tostas, não podes jogar isso como piada – tens de tratar esse medo com a seriedade de uma fobia real. O público ri-se do absurdo, mas acredita na personagem porque te mantens fiel à tua própria lógica.
Patti Stiles, por seu lado, vê a autenticidade como um presente para o parceiro. Se me escondo atrás da ironia ou dos gags, deixo o meu parceiro sozinho à chuva. Mas se reagir de forma autêntica e vulnerável, dou-lhe uma base "verdadeira" sobre a qual ele pode construir. Autenticidade aqui é um ato de generosidade: "Mostro-me a ti para que possamos criar juntos algo verdadeiro."
Os dois caminhos para o verdadeiro
Resumindo, há duas grandes correntes:
- Os buscadores (Johnstone, Close, Stiles): dizem: "Cava mais fundo! Larga a máscara, procura a verdade dentro de ti, sê vulnerável." Aqui a autenticidade é uma descoberta.
- Os fazedores (Napier, Spolin, UCB): dizem: "Pára de matutar! Decide, faz alguma coisa, confia no teu corpo e na lógica da cena." Aqui a autenticidade é uma afirmação corajosa.
Qual é o teu caminho? Depende do dia. Às vezes é preciso ir para dentro de si e arranjar coragem para estar "nu". E outras vezes é preciso simplesmente começar a esfregar o chão para que a cabeça deixe de estar à frente.
Como é que se nota que não somos autênticos?
Há alguns sinais clássicos – também lhes chamamos os "assassinos da autenticidade":
- O "reflexo do gag": Uma cena fica emocional ou séria e nós atiramos uma piada para matar a tensão. É um mecanismo de defesa. Bloqueamos a emoção verdadeira porque ela nos mete medo.
- A "cara de impro": Conheces aquela mímica exagerada com que se quer mostrar a toda a gente: "Olhem como estou TOTALMENTE zangado!"? É o oposto do verdadeiro. Uma pessoa realmente zangada chega a tentar esconder a raiva – e isso é muito mais interessante de ver.
- A "distância de segurança" (a ironia): Quando comentamos tudo com ironia em vez de nos comprometermos com a situação. Ficamos quase ao lado de nós próprios a dizer: "Isto é só um jogo." E assim retiramos qualquer peso à cena.
- A hesitação: O "hum…" antes de responder. Mostra que estamos a folhear o catálogo das "melhores respostas possíveis" em vez de ouvir as tripas.
Como se treina isto (trabalhos de casa para a cabeça)
A autenticidade não se força, mas pode-se preparar o terreno. Algumas abordagens para as nossas sessões:
- Aceitar o "banal": Joguem cenas onde absolutamente nada de especial precisa de acontecer. Duas pessoas à espera do autocarro. Falem do tempo, mas a sério. Sintam como muda a ligação quando desaparece a pressão de "ser engraçado".
- Tarefas físicas: Joguem cenas enquanto fazem uma tarefa física exigente (flexões, montar um armário imaginário, pintar uma sala). Reparem como a vossa voz e as reações se tornam "mais verdadeiras" porque o corpo assume o comando.
- Trabalho de status: Experimentem como muda a autenticidade quando alteram fisicamente o status. Um status alto realmente sentido (e não apenas jogado como arrogância) chega ao público de maneira muito diferente.
- Honestidade radical: Experimentem exercícios como "o que estou mesmo a pensar agora". Digam ao parceiro, dentro do papel (ou até por um momento fora dele), como se estão a sentir. "Tenho medo de que a cena se desfaça." – Pum, sai o ar, a verdade está na sala e podemos voltar a trabalhar.
Conclusão: atreve-te a ser tu próprio
No fim, autenticidade em palco é o mesmo que na vida: confiar que és bom o suficiente tal como és. Não tens de ser um autor genial, um humorista de stand-up nem um vencedor de um Óscar.
O público não veio para ver um espectáculo perfeito. Veio para ver pessoas a reagir verdadeiramente em situações arriscadas. Se tiveres a coragem de largar um pouco o controlo e simplesmente "estar ali", os momentos mágicos chegam por si.
Portanto: máscara fora, censor em pausa para café, e para palco. Estamos curiosos por conhecer o teu eu verdadeiro!