Freeze Tag: quando a imagem para e tudo recomeça
Freeze Tag é, no fundo, adrenalina transformada em arte. É o clássico absoluto entre os jogos de improviso para canalizar o nervoso miudinho diretamente em energia criativa. Também se conhece pelos nomes «Freeze», «Zap», «Improviso em cadeia» ou simplesmente «Toca e entra». É o jogo de aquecimento perfeito para qualquer grupo, mas pela sua velocidade e elevado valor de espetáculo funciona igualmente bem como número independente no palco grande.
No essencial, trata-se de roubar uma postura corporal congelada por acaso e fazê-la voltar à vida numa cena completamente nova, com um sentido totalmente diferente. É o treino derradeiro para a regra mais importante do improviso: o «sim, e». Aceitas a realidade física dos teus parceiros e acrescentas o teu próprio mundo, fresco.
O conceito e o desenrolar
O setup é simplíssimo. Todos os jogadores do grupo estão à beira do palco ou ao fundo, prontos. Dois jogadores entram no foco e iniciam uma cena com total empenho corporal. É importante que não se limitem a conversar, mas que usem o espaço, se mexam, façam coisas e mantenham a presença física.
Pouco depois, alguém grita dos bastidores ou da fila dos jogadores em espera: «STOP!» ou «FREEZE!». Nesse exato momento os atores em palco têm de congelar instantaneamente na sua posição atual, como uma estátua. Cada gesto, cada joelho dobrado, cada braço levantado fica rígido.
Agora entra um novo jogador pela lateral. Escolhe um dos colegas congelados, toca-lhe com cuidado e assume exatamente a sua pose. O jogador rendido sai do palco. O novo começa imediatamente uma cena totalmente nova. Esta cena é inspirada apenas pela postura física e não pode ter absolutamente nada a ver com a história anterior. O coração do jogo é a chamada justificação. Porque é que estou aqui assim? Quanto mais absurdo for o contraste com a situação anterior, maior costuma ser o entusiasmo do público.
Porque Freeze Tag é um favorito de todos os tempos
Há boas razões para este jogo não faltar em nenhum workshop. Aborda os obstáculos típicos com que os improvisadores tropeçam.
- Corpo em vez de cabeça: Muitos jogadores tendem a pensar demais. Costuma-se chamar a isso «talking heads»: cenas em que duas pessoas ficam ali a falar sem que se passe nada fisicamente. Como Freeze Tag te atira logo para uma pose, és obrigado a usar o corpo como gerador do impulso. Começas em movimento, não na cabeça.
- Ritmo e energia: As cenas de Freeze Tag costumam ser curtas, secas e voltadas para a piada. Isso mantém o nível de energia no palco lá em cima e a atenção do público bem agarrada.
- Força de associação: O jogo treina a capacidade de reinterpretar coisas a uma velocidade incrível. Uma mão levantada, que ainda há instantes era um cumprimento, no momento seguinte transforma-se em alcançar uma maçã na árvore ou em tentar enroscar uma lâmpada.
- Espírito de equipa: Todos os parceiros estão envolvidos. Quem espera ao lado tem de estar concentradíssimo para apanhar o momento perfeito de entrar. Aprende-se a ler o foco da cena e a apoiar os colegas com um freeze no momento certo.
As diferentes escolas do improviso
Fica realmente interessante quando se olha para a forma como os grandes pioneiros do improviso veem este jogo. Embora as regras se mantenham, a filosofia por detrás muda radicalmente a maneira de o jogar.
Keith Johnstone: a máquina da espontaneidade
Para Johnstone, Freeze Tag é um exemplo paradigmático da sua filosofia do «não-pensar». Usa o jogo sobretudo para desligar o censor interno. Como o jogador tem de saltar logo para a pose e arrancar, não lhe sobra tempo para procurar uma ideia «boa» ou «original». Tem de pegar na primeiríssima intuição. Johnstone adora quando a pressão física empurra os jogadores para ações absurdas e não planeadas. O objetivo é mostrar ao espectador como uma pessoa fica encurralada e se safa com um clarão espontâneo. Aqui é permitido que a coisa seja caótica, rápida e até competitiva.
Del Close: a busca da verdade
Na escola de Chicago, muito marcada por Del Close, olha-se para Freeze Tag com alguma desconfiança. Close era um inimigo declarado dos efeitos baratos. Receava que Freeze Tag tentasse os jogadores a jogar só pelo riso rápido. Assim que um jogador entra em palco e dispara apenas uma piada plana para explicar a pose, a integridade artística perde-se, segundo essa abordagem. Quando Freeze Tag é usado aqui, é usado como exercício de transformação. Trata-se de transferir a sério a energia física para uma realidade nova e verdadeira. Joga-se menos pela piada, mais pela nova relação entre as personagens que nasce da pose.
Viola Spolin: o treino da perceção
Para Viola Spolin, Freeze Tag é um exercício essencial para lidar com o espaço físico. O seu foco está em como o corpo se mantém no espaço. Quando rendes alguém, deves tentar sentir nos teus próprios músculos a tensão física do antecessor. Na sua tradição exige-se rigorosamente que a nova cena nasça da sensação corporal. Se os joelhos estão muito dobrados, o que é que isso faz ao meu status? Sinto-me velho, sobrecarregado ou pronto a saltar como um atleta? Trata-se de experimentar a forma, não apenas a ideia visual.
Mick Napier: capacidade radical de decisão
Mick Napier afinou ainda mais esta abordagem. O seu lema é simples: «Don't think.» Usa Freeze Tag para ensinar os jogadores a tomar uma decisão forte no primeiro milissegundo. É indiferente quão estúpida ou ilógica essa decisão pareça à primeira vista. Decisivo é defendê-la com 100 % de confiança.
Truques de profissional para mais profundidade e qualidade
Para que Freeze Tag não acabe numa enfiada de piadas planas, eis algumas estratégias que levam o jogo a outro nível.
1. Evita a continuação lógica
O óbvio é muitas vezes o mais maçador. Se alguém está congelado com um braço levantado, o polícia a dirigir o trânsito é a primeira ideia que vem a toda a gente. Tenta ir um passo mais longe. Talvez a pessoa seja um maestro a acalmar a orquestra, um limpa-vidros a uma altura vertiginosa ou alguém que tenta, com sucesso modesto, atirar um laço.
2. Oferece poses extremas
Como jogador em palco, é um enorme presente para os colegas pôr-te em posições desconfortáveis ou dinâmicas. Quem se deita no chão, equilibra-se sobre uma perna ou se inclina muito para trás força cenas novas mais interessantes. Uma conversa estática em pé quase não dá inspiração ao jogador seguinte.
3. O timing do freeze
Quando é o momento certo para render? Um bom freeze cai quando uma imagem é particularmente forte ou quando um conflito acabou de atingir o auge. Quem interrompe cedo demais corta um desenvolvimento interessante. Quem reage tarde demais deixa a energia da cena escapar. O momento ideal chega quando o público está metido na história e a constelação física pede uma resolução.
4. Olhar com precisão
Quem espera à beira do palco não deve pensar apenas na sua próxima ideia. Tem de observar com precisão como é a pose dos colegas. Quem olha de raspão acaba por copiar a postura de forma errada ou incompleta. Isso faz com que o arranque da nova cena fique rígido, porque a justificação corporal não bate certo com a imagem que se viu.
Variações interessantes para o treino
Quando a forma clássica está dominada, pode subir-se a dificuldade para treinar novas competências.
- Blind Freeze: Os jogadores em espera estão de costas para o palco. Quem sente que é a hora certa grita «stop», vira-se e tem de trabalhar com a imagem que encontra. Isso impede que se prepare uma cena com minutos de antecedência e impõe espontaneidade absoluta.
- Elimination Freeze: É a versão competitiva. Quem não tem uma ideia rápida, hesita demasiado ou tropeça na justificação fica eliminado. No fim resta um «rei do freeze». Aumenta a pressão e funciona especialmente bem em espetáculos.
- Object Freeze: Aqui o foco está em a pose envolver sempre a interação com um objeto invisível. Cada nova cena tem, portanto, de definir um objeto que a postura corporal segura ou movimenta.
Conclusão
Freeze Tag é muito mais do que um simples jogo infantil para adultos. Junta as competências centrais da improvisação: atenção, fisicalidade, aceitação radical e coragem para decidir depressa. Quer o jogues como um gerador rápido de piadas no sentido de Johnstone, quer como um exercício profundo de transformação na linha de Del Close. Continua a ser uma ferramenta indispensável na caixa de qualquer actor. Lembra-nos que muitas vezes é preciso pensar menos e sentir e agir mais. No exato momento em que o mundo se imobiliza por uma batida, está toda a liberdade para criar algo completamente novo.